sexta-feira, 18 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 27/julho

Concentração total


Se ontem o set esteve leve com a presença das crianças, hoje a história é diferente. O ano é 1931, Chico tem 21 anos e irá presenciar um drama em sua família. Um momento forte do filme que deixou toda a equipe na expectativa. Principalmente Larissa Vereza, que vive Lúcia e que estará em toda a seqüência de seis cenas que serão gravadas hoje.

Angelo Antônio e Luís Mello no set, concentrando-se antes de iniciar a primeira e forte cena do dia (fotos de Ique Esteves)

“Estou muito ansiosa. E se eu ficar meio esquisita depois, ninguém estranhe!”, confessa Larissa. A ansiedade é compreensível; a preocupação, não: a atriz ganhou o papel de Lúcia justamente com esta cena, no teste realizado no Rio. “Ela faz superbem. É uma passagem muito intensa”, conta Cynthia Falabella, que ensaiou com os atores na base carioca.

Esta cena também trouxe de volta ao set os atores Anselmo Vasconcelos e Ana Rosa, que vivem o casal de médiuns Perácio e Carmem. Na vida real, foram eles que tranqüilizaram Chico quanto ao seu dom, até então incompreensível para ele. Aqui, o leitor terá que usar a imaginação para saber por que eles estão nesta cena…

Anselmo Vasconcelos, que vive o médium Perácio, marido de Carmem (Ana Rosa), também está mais sério por conta da cena










No set, a montagem do equipamento é feita, estranhamente, com muito pouco barulho e sem correria. Ângelo Antônio, ainda com a equipe arrumando a luz, senta-se em uma cadeira de balanço no canto do cenário e fecha os olhos, balbuciando alguma coisa: o texto, uma prece, um mantra? Não dava para ouvir…


Pouco a pouco, os atores entram na sala de João Cândido – antes mesmo de o diretor chegar ao set – e cumprem o mesmo ritual. Isolam-se, concentrados – uma situação inédita desde o início das filmagens. Ângelo ainda está imóvel na cadeira de balanço; Oswaldo Mil (José) lê em uma poltrona; Luís Mello (João Cândido) senta-se à mesa de jantar, com expressão séria, o rosto entre as mãos; Carla Daniel e Ana Rosa sentam-se lado a lado, em silêncio.E Larissa Vereza está destacada, começando sua transformação em Lúcia. É assim que Daniel Filho encontra seu elenco. Também ele chega silencioso, vai de um em um e faz um afago. Cris D`Amato avisa: “Hoje só fica no set quem é absolutamente necessário.”
Após a marcação da cena, começa o primeiro ensaio. Os que ficaram no estúdio estão de olhos vidrados, principalmente na interpretação de Larissa. “É uma cena muito forte, mas que condiz com o que acontecia na década de 1930”, explica Ana Rosa, praticante do espiritismo desde a década de 1970. “Eu comparo o ser humano a um rádio: é simplesmente uma caixa vazia, mas que sintoniza o que está no ar. Pra mim, esta cena marca uma fase importante do filme”, diz Anselmo Vasconcellos, hoje agnóstico, mas criado pela família dentro dos princípios kardecistas. Pelos comentários dos atores, já dá para antever que a cena é um dos pontos marcantes da história…
Um momento no set é um exemplo interessante sobre como Daniel dirige seus atores: Larissa já está há mais de meia hora concentrada para sua cena, o que significa que a atriz já tem toda a carga de emoção e sofrimento necessários. “Não, Larissa, não se concentra tanto tempo antes. Senão, na hora em que eu precisar você vai estar extenuada. Desconcentra, relaxa, vamos brincar”, diz o diretor, e começa a dar uns tapinhas nas pernas da atriz: “Ei, olha pra mim. Quer sair um pouquinho? Sai, vai dar uma volta.” Na hora da cena, Larissa está em ‘ponto de bala’.

Depois da primeira – e mais pesada – cena do dia (e ainda faltavam outras cinco), a palavra mágica: “Almoço!”. Saem todos em direção ao local de alimentação – inclusive Ângelo Antônio, com os sapatos desamarrados. Explica-se: desde que começou a pesquisar a vida do médium, Ângelo vem colecionando talismãs (o lenço, o perfume…) e hábitos de Chico. Ao visitar Uberaba pela primeira vez, antigos amigos do médium contaram que ele nunca amarrava os sapatos. Desde Tiradentes, Ângelo é visto andando no set com o cadarço desamarrado…


Os sapatos desamarrados de Ângelo, um hábito de Chico Xavier adquirido pelo ator













Outras cenas desta mesma seqüência entram pela tarde adentro. E após a última do dia, mais despedidas: Larissa Vereza e Carla Daniel dão adeus a Lúcia e Carmosina. Buquês de flores entregues por Daniel e a brincadeira: “hoje nos deixam duas grandes atrizes, que ainda por cima são filhas de grandes atores.” Larissa é filha de Carlos Vereza e Carla… de Daniel Filho. Palmas da equipe – e mais duas pessoas da família Chico Xavier saem da caravana…






A despedida de Carla Daniel e Larissa Vereza da ‘família’ de Chico Xavier: as atrizes receberam flores e os agradecimentos do diretor

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 26/julho

Dia da Criança


Em Chico Xavier, o Dia das Crianças não é em 12 de outubro. É hoje. Para as três cenas a serem filmadas, uma turminha de nove meninos e meninas, entre 9 anos e seis meses de idade, vão viver os irmãos de Chico. Parece que vai ser o caos. E render boas histórias. Mas quando o segundo assistente de direção Bruno Garotti – responsável por ficar com as crianças todo o tempo – entra no estúdio, a impressão de bagunça passa. Mas as histórias estão garantidas.

Os pequenos atores chegam ao set em fila indiana, e de mãos dadas. Por conta própria se colocam lado a lado e Daniel Filho passa a tropa em revista, apertando a mão de cada um e explicando o que vai acontecer. O chorão de ontem – Nicolas, que queria ir ao shopping – está de volta e a equipe se empenha em distraí-lo. A diretora-assistente Cris D`Amato (mesmo recuperando-se de uma dor na base do pescoço que a levou ao médico ontem e ainda incomoda) coloca o menino sobre o carrinho de câmera que desliza nos trilhos. Em pouco tempo Nicolas está à vontade e parece adorar a brincadeira de fazer cinema.

Mesmo com o bom comportamento dos pequenos, filmar com crianças não é tarefa fácil. Elas choram, brincam, querem fazer xixi pouco antes de gravar e… mamam. “Um de nossos atores está mamando, vamos ter que esperar um pouquinho!”, avisa Daniel. O comilão é Cauã Ribeiro, de seis meses, um bebê risonho e simpático que ao entrar em cena com Giovanna Antonelli “improvisa” uns tapinhas no colo da atriz, abre um sorriso enorme e dá um puxão em sua trança postiça. O set adora, o diretor aprova e a cena é gravada de primeira.

Giovanna Antonelli, a Cidália, brinca com o sorridente Cauã antes de gravar (fotos de Ique Esteves)







Giovanna está em todas as cenas do dia. Sua Cidália chega à casa de João Cândido para ser a boa madrasta da prole. Para ela – como para todos os atores que fazem participação especial no filme – o sotaque mineiro é uma grande preocupação. Ao final da primeira cena, Giovanna vai ao Video Assist e pergunta a Cynthia Falabella (que trocou de posto com Babaya e voltou ao set ontem): “E aí, deu certo?”. Cynthia dá a dica: “Quanto mais a naturalidade fluir, melhor fica o sotaque. Mais leve, sem acentuar demais. Tá ótimo”, garante.

Onde tem criança, tem de ter mingau. E tem. Para a reunião da família em torno da mesa, tio Claudinho (Amaral Peixoto) chega com um panelão de mingau de aveia, que é servido por tio Farinha (o contra-regra). Antes do segundo take, é preciso reabastecer, pois a garotada comeu o mingau de verdade.


‘Tio’ Farinha serve o mingau de aveia preparado especialmente para a cena. E a garotada entrou mesmo no personagem: antes do take dois, muitos pratinhos já estavam vazios…

As crianças dão um pouquinho de trabalho, mas quem leva puxão de orelha é alguém que, enquanto a cena rodava, atravessou o corredor da casa, entrando em quadro. Daniel não se conteve: “Corta! Tem alguém lá no fundo! Faz foco na pessoa pra eu ver quem é”, e parte para dentro do cenário. “Que absurdo”, volta dizendo. Algumas das coisas que mais incomodam o diretor é o excesso de gente na boca de cena, a movimentação exagerada e, claro, o barulho durante os ensaios.

Quem controla o movimento é Chicão, o chefe do platô cujo bordão é “silêncio, por favor, celulares desligados, por favor!”. Mas até ele hoje trocou para: “Gente, vamos fazer silêncio. O bebê está dormindo”, pede, referindo-se a Cauã, que está aninhado no colo da mãe postiça. Até o tradicional “som, câmeras, ação!” é feito mais baixo, sem microfone.

Se dentro do estúdio quase não há barulho, na sala de espera há uma confusão de mães, bolsas de bebê, moisés, mamadeiras e brinquedos. Em cena eles são comportados; mas é só pisar do lado de fora que correm de um lado pro outro…

A costureira Ilma Santos ri da bagunça. Ela conhece bem o bebê Cauã, que dorme alheio à algazarra. Foi ela quem fez sua roupinha de época (1922). “Começamos, eu e a costureira Fátima, a produzir as roupinhas no Rio. Mas chegaram mais bebês e fiz essas durante a semana”, conta Ilma que, com Chico Xavier, contabiliza 70 longas-metragens na carreira. O primeiro longa foi Quilombo dos Palmares, de Cacá Diegues, em 1983. Ilma joga nas onze: até atriz ela foi (na novela Brilhante e em O rendez-vous, com Eva Tudor, no teatro). Mas optou pelo departamento de figurino. Em Chico, ela forma o time da costura (com Fátima Félix, Alex Brasil, Regina Costa e Maria de Fátima) – mas só até a volta ao Rio, quando assumirá o posto de camareira de Cristiane Torloni.

A costureira Ilma Santos já tem 70 filmes no currículo. Quando ‘Chico Xavier’ voltar ao Rio ela assume o cargo de camareira de Cristiane Torloni








Mas o dia das crianças de Chico Xavier ainda não acabou. E a última história é uma tremenda coincidência: Giovanna Antonelli vive Cidália, madrasta de Chico. Pois a filha caçula, Lúcia, na cena com dois anos, será vivida por uma pequenina chamada… Sidália (só que com s). Acompanhada pela mãe e pelo onipresente Bruno Garotti, a menina não quer entrar em cena de jeito nenhum. Bruno dá a ela uma boneca, diz que ela vai só “tirar uma foto pra mostrar como está bonita”, mas não adianta. O jeito é chamar a menina que está de stand-by (sempre há uma dupla em caso de crianças pequenas, que podem ter reações variadas na hora de gravar). A menina entra no estúdio e chama-se… Giovanna. Sai Sidália, entra Giovanna – para contracenar com Giovanna, a Cidália da história.

E como um dos três protagonistas do filme também é um menino de 11 anos, ele também esteve presente na cena. Matheus Costa está na sala de maquiagem jogando futebol no PlayStation portátil enquanto o assistente de maquiagem Ancelmo Saffi prepara um “ferimento grave”em sua barriga. “Eu tenho que me concentrar no jogo pra não olhar. Eu sei que é de mentirinha, mas me dá uma agonia…”, diz Matheus.

O dia terminou com o segundo Parabéns pra você da semana. Mas o aniversariante não é nenhum garoto: o eletricista Anderson ‘Cabeça’ completou 39 anos. E ganhou bolo de chocolate com direito a velinhas…

Hoje o dia no set foi bem leve por conta dos curumins. Amanhã não haverá crianças em cena. Ainda bem, pois teremos um exorcismo no filme…

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 25/julho

A volta de Nelson



O termômetro marca 10 graus às 7h20, e o comboio de Chico Xavier parte em direção à antiga estação ferroviária de Campinas, para a primeira cena após a folga de ontem. Todos contando o que fizeram, ainda comentando o fogo na fábrica na quinta-feira e se preparando para começar mais uma semana de filmagens. Sim, o calendário do filme é contado a partir da folga. Portanto, hoje, sábado, é segunda-feira para a equipe. E com muitas novidades.

A filmagem na estação tem um outro atrativo, além da bela locação: é a volta de Nelson Xavier ao filme. O ator, que vive Chico na maturidade, ainda não havia se unido à caravana desde o início da viagem. Ele filmou no Rio e só agora inicia suas cenas em Paulínia, para depois encarar a maratona que terá na volta da viagem. Rosi Campos, que vive Cleide, parceira do médium por longos anos, também chegou com Nelson.

O contra-regra Farinha troca a placa da antiga estação de trem de Campinas: agora é Uberaba, em 1969 (fotos de Ique Esteves)






A cena, de número 130 do roteiro, marca a passagem de tempo do Chico de Ângelo Antônio para o Chico de Nelson Xavier. Para isso, o dressing do set esconde a placa “Plataforma 2” por “Uberaba”. Quando o chefe do platô, Chicão, vê três maquinistas e um eletricista trocando uma lâmpada da plataforma, já se arrepia: “Ai, meu Deus, lá vem lâmpada de novo!”, brinca, ainda lembrando que foi uma lâmpada o que causou o curto – contido pela equipe – no set em Americana.

Nelson Xavier, o Chico na maturidade, volta ao set e se encontra com Matheus Costa, o Chico criança





E então chega Nelson Xavier. Logo cedo, às 6h30, a assistente de cabeleireira Luana Jacob foi ao encontro do ator onde ele está hospedado, em Campinas, para começar a metamorfose: pintou e cortou seu cabelo – aumentando em quase 2/3 sua testa, para reproduzir a calvície de Chico nesta época da vida. Depois, já no set, a maquiadora Rose Verçosa finalizou o processo de transformação, através da maquiagem.

Foi uma cena curta. Ensaiada três vezes e gravada em take único, ao estilo Daniel. Apenas 15 minutos. Mas para que ela acontecesse, foram 40 minutos de deslocamento e 2h30 para arrumar todo o equipamento. Isso é cinema!

Tudo finalizado às 10h20. E Daniel brinca: “Almoço!”, reproduzindo uma hora esperada por todos… O mais incrível é a desprodução (desmontagem) do set: 5 minutos, contados no relógio. E não havia mais vestígio de que naquela plataforma havia sido filmada uma importante cena de Chico Xavier. Isso é que é efeito especial…

Então todos retornam ao estúdio 3 do Pólo Cinematográfico de Paulínia. Lá, uma outra estréia de peso aguarda a equipe: a primeira cena de Giovanna Antonelli, que vive Cidália, a madrasta de Chico em 1922. Foi Daniel quem a introduziu no set: “Está entrando em cena Giovanna Antonelli!”, anuncia. Ela cumprimenta a todos e faz carinho em Matheus, com quem contracenou na novela Três irmãs.

Giovanna Antonelli, nas mãos da assistente da cabelo e maquiagem Glória Maria, filma suas primeiras cenas como Cidália, a boa madastra de Chico





Esta cena – como as demais em que os dois contracenam – mostra o relacionamento carinhoso que o pequeno Chico tinha com a segunda mulher de seu pai. São cenas tocantes, emocionadas… Mas alguém no set chora de verdade: o menino Nicolas, escalado como figurante-mirim para viver um dos meio-irmãos de Chico, começa a chorar em sua cama (onde gravaria). Ele queria porque queria ir ao Rodoshopping, localizado dentro do complexo do Pólo Cinematográfico. A produção e Daniel, cuidadosos com o menino, chamam sua mãe e começam a distraí-lo. Com a mãe ao lado, Daniel brinca com ele, a diretora-assistente Cris D`Amato mostra fotos de seu celular, até ele esquecer do shopping e fazer a cena direitinho…

A cena foi acompanhada pelo secretário de Cultura de Paulínia, Emerson Alves, e pela secretária de Recursos da prefeitura, Carol Bordignon. Eles foram ao set pela primeira vez acompanhar o dia de filmagem. “Estamos investindo pesado para fazer de Paulínia um grande centro de produção do nosso cinema. E ter Chico Xavier aqui, com boa parte de suas filmagens é muito importante”, diz o secretário de Cultura, que antecipa que, depois de Chico, mais cinco projetos estarão sendo filmados aqui este ano, e a meta é ter 20 produções nos próximos 12 meses. “Isso para blockbusters e para produções de baixo orçamento. O que queremos é dar nossa contribuição para o desenvolvimento do cinema brasileiro.”




O secretário de Cultura, Emerson Alves, e a secretária de Recursos da prefeitura de Paulínia, Carol Bordignon, visitaram o set e acompanharam a filmagem do dia

Alguns momentos que misturaram tensão e descontração: Daniel estava pronto para filmar. Mas a assistente de direção Tatiana Fragoso pediu um minuto para acender uma vela do cenário. Impaciente, Daniel disse ao microfone, e sua voz ecoou pelo set: “Um minuto pra acender uma vela? Em um minuto eu acendo 60 velas!”. Como todo mundo fica em polvorosa quando Daniel reclama, foi um rebuliço. Em outro momento, ao ver que uma das portas estava fechada, quando ele já havia feito a marcação com a porta entreaberta, avisou: “Eu não tenho que ficar vendo isso. Da próxima vez que eu notar algo assim eu vou ser de-sa-gra-dá-vel.” Mas logo depois o clima amenizou quando, pelo mesmo microfone, Daniel falou, em tom de lamento: “ai, como eu sofro… ai, como eu sofro…”. Do outro lado do set, todo mundo ri baixinho.

Outra nova aquisição de Chico Xavier é Sandra, set dresser de São Paulo que chegou para auxiliar o diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto com novos acessórios para o dressing da casa de João Cândido. “Esgotamos tudo o que havia nos antiquários de Campinas, já que em Paulínia não há nenhum. E alguns dos objetos não foram do agrado do Daniel. Como temos uma equipe muito enxuta e trabalhando nas cinco frentes de filmagem, contar com este apoio, que trouxe material de São Paulo, é bom”, diz o diretor de arte.

E outra sombra ronda o set: o temor da gripe suína. Não há nenhum caso na equipe – toc, toc, toc – mas a preocupação não diminui. “É inegável que estamos fazendo um filme sob essa ameaça, uma vez que somos muitos, sempre juntos e em ambientes fechados”, preocupa-se Daniel.

Mas não é o vírus H1N1 que está fazendo a equipe inteira tossir – são a temperatura e a chuva. É uma sinfonia no set. Tanto que, na última cena filmada hoje, em que Giovanna deveria tossir bastante, Daniel declarou: “Esta cena é em homenagem à nossa equipe.” E mais tosses…

FILME CHICO XAVIER - 24/julho

Dia de folga, dia de Macarrão




Hoje é dia de folga para a equipe. Logo após o café da manhã no hotel onde a maioria está hospedada, a debandada é geral. Uns vão para São Paulo, a cerca de uma hora de Paulínia; outros, para Campinas, a 15 minutos daqui; outros ainda vão conhecer o Parque Ecológico de Paulínia, que abriga o zoológico municipal, e que fica bem em frente ao hotel – apesar da chuva que teima em cair na cidade…

Portanto, hoje há uma pausa nos bastidores da filmagem. É dia de relaxar. E de aproveitar para conhecer um personagem que não faz parte do filme, pouco fica dentro do set, mas que é conhecido de todos – principalmente do diretor Daniel Filho.

Macarrão ao lado de Daniel, com quem trabalha há quatro anos e cinco filmes, em Paulínia (fotos de Ique Esteves)
Lindoaldo Carvalho de Oliveira, 32 anos, é o motorista particular de Daniel. Mais do que isso, é uma espécie de secretário pessoal do diretor – e não apenas quando está filmando. “Trabalho para o ‘seu’ Daniel desde o filme Muito gelo e dois dedos d`água. Depois, ele mandou me chamar de novo para Primo Basílio. E quando acabou a filmagem, quis que eu ficasse mais 15 dias. Depois mais 15. E estou até hoje”, conta Macarrão, como é conhecido por todo mundo.

São quatro anos e cinco filmes juntos. Depois de Primo Basílio, Macarrão acompanhou Daniel em Se eu fosse você 2, Tempos de paz e agora, em Chico Xavier. Mas entre os filmes ele também está ao lado do diretor, contratado pela produtora Lereby. “Eu estou sempre ligado no que ele vai precisar, dentro ou fora do set. É engraçado mas, mesmo quando ele sai sem o celular, eu sei a hora certa de estar esperando por ele. Já é intuitivo”, conta Macarrão, que está mesmo sempre preocupado com os detalhes. Durante a filmagem de Chico Xavier, por exemplo, sempre que o almoço é servido, antes de todo mundo ele dá uma olhadinha no cardápio. “Pra ver se tem o que ‘seu’ Daniel gosta…”.


Ele guarda um momento especial do relacionamento com o chefe: “Foi na primeira vez que eu o vi. Ele chegou perto de mim e perguntou, sério: ‘é você quem vai dirigir o meu carro?`. Quando eu respondi que sim, ele avisou: ‘você sabe que isso não é um carro, é um tanque. Vou te mostrar como manejá-lo’. E sentou no banco do carona, me dando todas as dicas sobre o carro…”, conta Macarrão, que tem uma peculiaridade: conhece o caminho e o tempo de percurso para qualquer lugar. É só dizer para onde, que ele vai. E isso onde quer que o filme esteja sendo feito.


Outra história, contada por Daniel, faz lembrar o filme Conduzindo Miss Daisy, dirigido por Bruce Beresford, com Morgan Freeman interpretando o motorista de uma senhora meio “rebelde” com a falta de liberdade, vivida por Jessica Tandy. Aliás, é assim mesmo que Daniel conta: “parecemos os personagens do filme discutindo”. É que às vezes, principalmente quando está acompanhado de Olivia Byington, o diretor quer ele mesmo dirigir. E Macarrão insiste em acompanhá-los. “Não precisa”, diz Daniel. “Mas eu quero dirigir para o senhor”, rebate Macarrão. “Mas eu não quero! Eu mesmo vou dirigir”, faz a tréplica Daniel. E assim vai… até o diretor dar a palavra final: “Seu eu posso dirigir um filme, posso dirigir meu carro!”. Corta!


Por essas e outras que Daniel, quando Macarrão insiste, diz: “Menos, Morgan”, referindo-se ao ator do filme. “É claro que eu sou suspeito pra falar, mas trabalhar com ‘seu’ Daniel é ótimo. Só saio se ele não me quiser mais…”, confessa Macarrão.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 23/julho

O tempo e a fábrica de tecidos



Hoje a corrida é contra o relógio – e a favor de um dia produtivo de filmagem. As quatro cenas da manhã devem ser rodadas em um tempo bem menor do que estava previsto. Por conta do atraso de ontem – em que as filmagens terminaram às 22h30 – a equipe, respeitando o intervalo de 12 horas de descanso, chega ao set mais tarde do que o normal. Isso, somado ao deslocamento de parte do time para a cidade de Americana após o almoço, faz o dia de Chico Xavier ser mais corrido.

Mas o problema com as lentes foi resolvido. Uma equipe técnica de São Paulo veio à base em Paulínia reunir-se com todo o departamento de fotografia. Após uma checagem geral no equipamento – que durou até as 2h40 da manhã – e a testagem realizada pelo primeiro assistente de câmera Jorginho, está tudo ok para continuar!

Mas a pressão do horário faz o set ficar mais tenso. “São 11h20!”, avisa Daniel, mostrando os 20 minutos de atraso da cena – que terá a volta de Chico, o simpático vira-lata que interpreta Lorde, o cãozinho de Chico Xavier.

Chico está assustado com a movimentação no hall do estúdio. Empaca e não quer entrar de jeito nenhum. Neste momento, Daniel também está chegando e, vendo o cachorrinho com medo, pega a coleira. “Deixa comigo, eu levo ele”, diz Daniel. “Chico, vem Chico”, chama. E Chico vai – ele não é bobo de não atender a um chamado do diretor! Melhor ainda é relaxar no Video Assist: enquanto Daniel se reúne com a diretora-assistente Cris D`Amato e a assistente de direção Tatiana Fragoso, lá está Chico todo prosa no colo do diretor do filme…



Chico todo prosa no colo do diretor, no Video Assist… (fotos de Ique Esteves)



Jean Pierre Noher (Jean Manzon) e Charles Fricks (David Nasser) chegaram a Paulínia e voltaram ao set. E Jean Pierre logo procura o fotógrafo do filme, Ique Esteves, para mais uma “aula” rápida sobre como manejar a antiga Rolleiflex. “É hoje que eu vou contracenar com ela”, preocupa-se Jean, com seu sotaque meio argentino (ele mora há muitos anos em Buenos Aires), meio francês (o ator, assim como seu personagem, nasceu na França).

Daniel conversa com os atores Charles Fricks (David Nasser) e Jean Pierre Noher (Jean Manzon) durante um intervalo das filmagens






Um detalhe interessante sobre como é o quebra-cabeças das filmagens: a cena de Jean, Nasser e Chico é a continuação de outra, gravada em Tiradentes em 11 de julho. Naquela ocasião, os três conversam diante da fachada da casa. Hoje, eles entram na sala de Chico: levaram 12 dias só para atravessar a porta! E a continuidade está lá para garantir que nada se perca entre uma e outra…

Outra rotina deste puzzle é conciliar a gravação com a agenda dos atores – principalmente dos protagonistas. Assim que corta a cena, Daniel “expulsa” Ângelo Antônio do set. “Vai, Ângelo, se manda, cara!”, diz Daniel. Por conta de teatro no Rio, ele tem de sair do set para o aeroporto paulista e do aeroporto carioca para o teatro. Para estar de volta no sábado de manhã – e retornar ao Rio à noite. Não é fácil…

Após o almoço, a filmagem continua em Americana, distante 40 minutos de Paulínia, em uma fábrica têxtil. Mas como sobremesa, teve Parabéns pra você no set: Vô Du – o Professor Pardal de Chico Xavier – completa 48 anos hoje. Para surpreendê-lo, a diretora-assistente Cris D`Amato chama o chefe da maquinária e finge estar brava com alguma coisa. Por trás dos dois, a equipe chega com dois bolos de aniversário. “Pô, ela me pilhou muito”, diz o aniversariante. “Eu já estava ficando nervoso e quando me virei fiquei meio sem graça”, conta uma das pessoas mais simpáticas, gentis e bem-humoradas do set.

Depois de apagar a velinha, Vô Du e o resto de sua equipe partem correndo para a Mubtext, uma das fábricas têxteis que funcionam nos galpões da antiga Indústria de Tecidos Carioba, que fechou em 1974. Depois disso, a prefeitura sublocou partes do lugar para pequenas empresas – que hoje chegam a 30 funcionando ali.

A cena remete a 1922, quando Chico, com 12 anos de idade, trabalhava em uma fábrica de tecidos. “Nem precisamos mexer muito. Até as máquinas são bem antigas”, conta o diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto, que destaca um detalhe que compõe o cenário, e que parece coisa de seu departamento: o pó de algodão que sai permanentemente das máquinas acumula-se por toda parte. Nos cabos, no telhado, nas luminárias… um cenário perfeito!

Cris D`Amato em plena ação, dirigindo Matheus Costa na fábrica de tecidos, com o diretor de fotografia Nonato Estrela ao fundo





Apenas parte da equipe deslocou-se para a fábrica, e a direção da cena ficou com Cris D`Amato. Mas “parte” da equipe significa um novo comboio composto por 10 carros, entre vans e de passeio, e quatro caminhões. Depois de armar toda a parafernália e colocar os figurantes (adultos e crianças) no cenário de fios de algodão, a cena é finalizada.

Um incidente após a filmagem deu um susto em quem desmontava o set: um curto em uma das luminárias do teto. “Começou a pegar fogo, que foi se espalhando por conta dos fios de algodão”, conta Alexandro Albornoz, o Gaúcho, do platô. A rapidez dos cerca de 20 homens que estavam trabalhando ali conseguiu deter o fogo sem maiores conseqüências. “Usamos os extintores das vans e dos caminhões da produção”, conta Gaúcho.

E pela primeira vez chove, desde que Chico Xavier começou a ser filmado, em fins de junho. Uma chuva forte. Que também parece ter sido encomendada para compor a cena…

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 22/julho

Despedida…


Uma grande e densa cena, dividida em várias seqüências, é o que o Estúdio 3 do Pólo de Cinema da Paulínia recebe hoje. A cena também marca a despedida do filme de alguns membros da família Xavier.
Logo cedo, as seis irmãs, o irmão Raimundo, o cunhado e o sobrinho de Chico chegam ao set juntos. Antes de entrar para a maquiagem e o figurino, se reúnem diante do prédio para um papo. Parecem mesmo uma família em clima de despedida.







O elenco de Chico Xavier reuniu esses atores – com experiências tão diversas – para participações especiais. Juntos, foram apenas quatro dias. “Mas fizemos cenas tão fortes, mesmo as que não tínhamos fala, que é uma experiência inesquecível. E que nos aproximou mesmo”, conta Cacá Dias, que vive Raimundo.

Enquanto isso, dentro do set, Daniel tem um problema sério nas mãos: quatro lentes das câmeras estão apresentando problemas. “Em 40 anos de filmagem nunca vi isso”, diz Daniel, quando chega ao set e é informado do que está acontecendo. “É como filmar sem Ângelo, como jogar sem Michael Jordan”, continua.

Uma reunião em um canto do set reuniu, além de Daniel, o diretor de produção Luiz Henrique Fonseca, o diretor de fotografia Nonato Estrela, o operador de câmera Gilberto Otero e os assistentes de câmera e foquistas (responsáveis pelo foco da câmera) Jorginho e Silvia Gamgemi. “Eu não tenho capacidade técnica para resolver isso”, diz Daniel. “Mas é um problema que todos nós estamos enfrentando. Temos que resolver rápido, e o que vocês decidirem é o que vai ser”, decreta o diretor. Um novo jogo de lentes precisa estar no set o mais rápido possível, para passar pela aprovação da equipe. Mas, para hoje, uma das lentes mais usadas no filme, a 50 mm, esteve fora de cena.

Após a reunião o set parte para a longa cena do dia: muitos atores (14 da família em cena), muita marcação, muitos movimentos de câmera. Daniel faz quatro, cinco ensaios. O diretor é reconhecido por gostar de gravar de primeira. Os vários ensaios preparam atores e técnicos para este take único.

Daniel marca a cena rodeado pela `família’ (fotos de Ique Esteves)







Isso também foi utilizado na cena seguinte – uma conversa delicada entre Chico (Ângelo Antônio) e seu guia espiritual Emmanuel (André Dias) –, em que uma dinâmica diferente tomou conta do set: Daniel pede silêncio absoluto e nenhum movimento, para a concentração total dos atores. Começa a rodar e, ao invés do tradicional “ação!”, Daniel diz, bem baixo: “No seu tempo, Ângelo, o tempo que precisar.” E mais uma cena forte do filme é filmada em take único.

O dia é mesmo da família. Por chegar a Paulínia vindo da estréia de sua peça no Rio, Ângelo aproveitou o tempo entre duas cenas para descansar e relaxar. Lugar melhor não havia: o `seu quarto`, dentro do cenário. Nos outros cômodos estavam os outros membros do clã.

Todas as cenas de hoje foram centradas nos oito irmãos e demais parentes de Chico Xavier que estão retratados no filme. Alguns continuam filmando, como Carla Daniel (Carmosina), Larissa Vereza (Lúcia), Oswaldo Mil (José) e Alexandre David (Pacheco, marido de Carmosina). Mas outros estão dando adeus à vida de Chico Xavier.

Carla Daniel no camarim: como os outros atores que aguardavam para filmar, ela despetala as rosas que serão usadas. A atriz ainda tem cenas como Carmosina e não se despede de Chico Xavier hoje






Atores e atrizes como Flávia Guedes (Geralda) , que há seis anos está em cartaz com O surto, peça que escreveu, dirigiu e atua; Tânia Costa (Maria Cândido), que teve sua formação de atriz toda na França (no Conservatório de Teatro, Cinema e TV), onde morou por 23 anos, e fez uma carreira de sucesso até voltar ao Brasil, há quase três anos; Andréa Caldas (Luiza), cujos últimos trabalhos foram participações nas novelas Cobras & lagartos e Duas caras, da Rede Globo; Kika Freire (Geni, cunhada de Chico) que, com 22 anos de carreira, atualmente interpreta a índia Potira em A grande família, além de dirigir e coreografar o musical As Robertas e participar de Feliz Natal, de Selton Mello; e Carla Kabé (Maria da Conceição) que começou a carreira como modelo na Itália e descobriu o teatro ao estudar com o fundador da Escola de Arte Dramática de Moscou, Jurij Alschitz, com quem encenou Sonhos de uma noite de verão e voltou ao país há cinco anos.

Dois atores também se despedem da família e do set: Cacá Dias (Raimundo, irmão de Chico), que este ano encenou Quando se é alguém, um texto inédito de Pirandello dirigido por Marta Ribeiro, e participou da novela Chamas da vida, da Record. E Samuel de Assis (que vive Altair, sobrinho de Chico), cujos últimos trabalhos foram A lei e o crime, na Record, a peça Trans-TV, com direção de Felipe Ribeiro, e curtas como Água viva, de Raul Maciel. Um time de peso que viraram parentes por algumas cenas.

Para homenageá-los, no encerramento do dia Daniel entregou um buquê de flores a cada um, agradecendo a participação de todos nesta jornada. E foram todos para o hall do estúdio comemorar com pizza e refrigerantes.

Ao fim do dia, Daniel distribui buquês de flores aos atores que encerram sua participação hoje. É ou não é uma foto de família?





Antes da festa, porém, entram em cena o contra-regra Farinha e seu assistente Rui Júnior, mais o pessoal da Arte e da Maquinária. É preciso retirar uma parede e o teto do cenário para a próxima gravação. O que deveria levar 15 minutos acaba levando 1h20 – atrasando, em muito, o fim do set. Resultado: amanhã, o que deveria ser filmado em quatro horas, terá de ser feito em apenas uma… Take único!

Sem o teto, abre-se o espaço para a câmera da grua filmar a cena do alto. E uma chuva de pétalas de rosas brancas cai sobre o cenário…

Uma bela forma de se despedir de alguns dos membros da família Xavier.

sábado, 12 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 21/julho

O outro Chico


A estrela do dia é Chico. E não é o Xavier.

Hoje é o primeiro dia de filmagem no Pólo Cinematográfico de Paulínia – e Chico Xavier está inaugurando o complexo do Estúdio 3. No mesmo prédio estão localizados o estúdio e mais o espaço para a base de produção, que inclui, além das salas para a produção e direção, uma sala para maquiagem e cabelo, outra para os atores, três salas de figurino, uma sala para câmera e som e um camarim para Daniel Filho.

Detalhe de um dos quartos da casa de Chico montada no estúdio do Pólo Cinematográfico de Paulínia



Aqui não há o stress de locações ou externas. Toda a estrutura de maquinária já está à disposição do chefe do setor, Vô Du. Chicão, comandante do platô, também não tem que ficar permanentemente no rádio com seus assistentes fechando e liberando trânsito. Nem “ abater” aviões que insistem em passar bem na hora de rodar…

A casa de João Cândido foi construída em duas semanas – quando o diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto ainda estava em Tiradentes, mas deslocava-se para cá a fim de acompanhar o trabalho – mas teve o dressing (que significa “vestir” o cenário com móveis, objetos e acessórios de cena) feito em dois dias. Hoje cedo a correria ainda era grande. Mas quando Daniel chegou ao set, a casa (sala, cozinha e três quartos) estava pronta. Com direito a reprodução de cerca, plantas e varal de roupas, vistos através da janela. E mais o Green-screem. Técnica muito usada atualmente, que cerca o cenário com cenas previamente filmadas em Tiradentes.

Uma das primeiras filmadas cenas vale um doce: a ilusão do cinema permite que um detalhe da difícil externa de ontem seja reproduzida no ambiente controlado do estúdio hoje. Na tela, no entanto, ninguém vai perceber o que foi realizado aqui. Um doce a quem conseguir! Uma dica: é toda em Green-screem. Os meninos se sentiam o Harry Porter. Quatro Harrys.

Depois, Ângelo Antônio entra no set e Daniel o recebe com um “bem-vindo à sua casa!”. O ator passeia pelo cenário e se detém nos detalhes: um molho de chaves antigas preso com barbante no cabideiro perto da porta; velas com cera derretida pelo uso; o forro do sofá gasto; pedaços de tecido e novelos de linha sobre a máquina de costura. A cozinha e seu fogão a lenha, com legumes e verduras verdadeiros na bancada…

Enquanto isso, do lado de fora do estúdio, um cãozinho vira-lata desce de um dos carros da produção com sua dona, Sueli, e Belamir Freire, da produção em Paulínia. E já chega abafando: pula, abana o rabinho para todos, deita e rola na grama. Uma simpatia. Ele “interpretará” Lorde, o cachorro de Chico Xavier, e hoje faz uma cena densa com Ângelo Antônio.

O astro do dia: Chico, um vira-lata simpático que será Lorde, e que conquistou todos no set. Ele é tão paparicado que tem até dublê, seu irmão Rambo


A história de como o produtor o encontrou parece coisa de cinema. Ou de Chico Xavier… “Eu estava procurando um menino que jogasse pião, e percorri vários bairros mais humildes de Paulínia”, conta Belamir. “Perguntei a um rapaz se ele conhecia algum e de repente o cachorro dele pulou em cima de mim. Como também estava procurando o `Lorde`, e esse cachorro era ideal, comecei a fotografá-lo. Ele fez pose, pulou, brincou, não saía de perto. Mesmo quando fotografei outros cachorros da rua, ele se metia da frente da câmera. Parecia que estava pedindo para fazer o filme…”

Quando Belamir perguntou o nome do simpático a seu dono, ele ouviu: “Chico”. “Então eu tive certeza de que seria ele!”, diz. O resultado é o show de simpatia que conquistou todos – atores e equipe – no set hoje. O astro tem até dublê: Rambo, seu irmão, que poderá substitui-lo em caso de necessidade…

Enquanto Chico não grava, uma outra cena reúne quase todos os integrantes da família Xavier: Carla Daniel (que fez uma cena emocionante como Carmosina) e Larissa Vereza, duas das irmãs do médium, chegaram a Paulínia para mais cenas. Luís Mello também estava no set, 40 anos mais velho (a cena de hoje se passa em 1958). Também participaram, entre outros, Cacá Dias, Alexandre David e as atrizes Flávia Guedes, Andréa Caldas, Tânia Costa, Carla Kabé e Kika Freire. No total, havia 15 atores na cena – quando Chico Xavier começa a deixar Pedro Leopoldo. Uma movimentação entre eles, marcada por Daniel (marcação é o nome dado quando o diretor diz por onde os atores devem andar).






A maquiadora Rose Verçosa envelhece Luís Mello em 40 anos

Uma das paredes da sala cenográfica é retirada, para que uma “coreografia” dos bastidores seja realizada: a cena será filmada com a câmera de Daniel Duran, fixa no tripé, e a de Gilberto Otero, presa sobre o carrinho de trilho. Os microfonistas Ricardo Sequeira e Frederico Massine estão posicionados. Gilberto e o foquista Jorginho estão no carrinho, que é conduzido por Vô Du nos trilhos. Enquanto os atores se movimentam, as câmeras tem outra “marcação” – também planejada pelo diretor.

Pouco antes de começar a coreografia perfeita do pessoal da câmera: sobre o carrinho, de boné azul, o foquista Jorginho, um mestre


Os assistentes de câmera Daniel Xavier e Tiago Rivaldo batem a claquete e então a coreografia começa: Vô Du desliza o carrinho, Ricardo e Fred levantam os microfones para que Gilberto e Jorginho passem, enquanto eles dirigem a câmera para a cena. Vô Du traz o carrinho de volta, Gil faz o movimento de câmera, Ricardo e Fred dão um passo para trás. Esses são dois dos quatro movimentos dessa coreografia. Quase um filme por trás do filme, a história que ninguém verá no cinema…

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 20/julho

O bom stress!


Junte cinco crianças, uma locomotiva, um set de acesso restrito, uma cena com inúmeros planos e uma traquitana inventada especialmente para o filme. O resultado é o dia de hoje de Chico Xavier.

A equipe a postos para gravar a complicada cena de ação do dia (fotos de Ique Esteves)




As crianças são os atores-mirins que vão contracenar com Matheus Costa – e que já chegaram mostrando ao que vieram, fazendo a maior algazarra na fazenda Santa Maria. Eles estão no set para atormentar Chico Xavier criança. Esta é a cena que será filmada hoje, toda em externa, na linha férrea dentro que atravessa a fazenda.

São 10h30 e tudo está pronto para rodar. Inclusive o objeto do desejo de Steven Spielberg, a locomotiva 338, com seus vagões vermelhos, parada à distância. Hoje ela é uma das estrelas: deve ir e vir diversas vezes, para vários planos e tomadas. É uma cena difícil, que deve zelar pela segurança das crianças, mas exige muita rapidez e concentração de todos e requer muitos planos (quando a seqüência a ser filmada é dividida em muitas partes). Além disso, para simular o movimento do trem, é necessário que a câmera corra no próprio trilho da linha férrea, e não no trilho normalmente usado, em paralelo.

E isso é um trabalho para Vô Du, o chefe da maquinária, um verdadeiro professor Pardal. Logo cedo, ele montou a sua máquina: instalou rodinhas especiais no carrinho de travelling adaptando-o ao trilho do trem. O resultado foi um deslizamento perfeito, suave, sem qualquer trepidação para a câmera. O carrinho foi devidamente batizado: a traquitana de Vô Du. O artista caminhava prosa pelo set, esbanjando seu sorriso contagiante. Com o Vô Du, alguém disse, não tem mau tempo.

Vô Du, chefe da maquinária e um inventor de soluções, orgulhoso de sua traquitana



Se o primeiro problema foi resolvido, o outro era um pouquinho mais complicado: tirar dos meninos a emoção e a concentração necessárias para a cena. Ao chegar ao set, Daniel se dirigiu às crianças, explicou a cena e disse o que queria. Mas Gabriel e Felipe, que brincavam sem parar fora de cena, na hora de rodar se mostraram mais quietos do que o que a cena pedia.

O jeito foi Daniel encarnar uma espécie de professor severo, que chama a atenção para que eles despertem para a cena. “Felipe, se movimenta, não fica segurando no suspensório”, diz Daniel. Quando o menino repete a mania, o diretor brinca: “Olha, se pegar no suspensório eu vou colocar pimenta nele.” Quando nem isso resolve, entra o professor: “Felipe, tira a mão do suspensório! E todo mundo concentrando. A partir de agora ninguém mais fala, ninguém mais brinca. Concentra no personagem!”, ralha Daniel. E deu certo! Até o ator-mirim mais velho, Guillermo, chama a atenção dos colegas: “Vocês vieram aqui pra brincar? Se concentra, cara, a gente veio filmar. Viu, já levou uma bronca do diretor…”

Para conter as brincadeiras dos meninos e ‘chamá-los’ para a cena, Daniel encarnou o professor severo. Deu certo…





Na próxima tomada, nova engenharia do pessoal da maquinaria – em conjunto com a equipe de elétrica e do platô . O plano pede que os meninos “sumam” entre os dormentes do trem, sobre uma ponte. Zelando pela segurança das crianças, a produção entrou em contato com o Corpo de Bombeiros de Campinas e os bombeiros Monteiro e Carlos Alexandre – e um carro da corporação – estão a postos, supervisionando o trabalho e atentos ao caso de alguma necessidade. Sob a ponte, Vô Du monta uma plataforma e nela se posicionam os dois bombeiros e mais o eletricista Anderson Cabeça, o assistente de elétrica Francis e o assistente de maquinária Eduardo (o Torresmo). Uma rede de proteção também é montada abaixo da plataforma. E nos trilhos, logo acima, junto às crianças, a diretora-assistente Cris D`Amato, o contra-regra Farinha e o incansável Vô Du.

Os meninos Gabriel, Felipe (à frente) e Guillermo (atrás) com Matheus Costa





Não foi fácil. Sai o praticável, volta o praticável. Vem o trem, volta o trem. Plano para a direita, depois para a esquerda, mais um close e um detalhe. Com butterfly (um croma key para posterior aplicação dos efeitos visuais), sem butterfly; desmonta tudo para liberar o tráfego, monta tudo de novo e fecha o trânsito… E Chicão, chefe do platô, rege essa orquestra de monta-desmonta.

A essa altura, até os atores que não participam se interessam pela cena: Oswaldo Mil desce até o set; Ângelo Antônio e Cássio Gabus Mendes (os três voltaram hoje ao filme) assistem de longe. O cuidado de toda a equipe com a segurança das crianças é impecável. Daniel Filho, por exemplo, ao ver Matheus Costa aparentemente perdendo o equilíbrio sobre os trilhos, se assusta: “Cuidado, Matheus, pelo amor de Deus!”, grita de longe. Para o menino acalmá-lo: “Não vou cair não, só tô treinando o que eu vou fazer…”

O aparato montado pelas equipes de maquinária, elétrica e platô, para garantir a segurança da cena
Ao final, os bombeiros Monteiro e Carlos Eduardo acentam com a cabeça: “Foi muito bom, deu tudo certo, foi muito seguro. Melhor até do que a gente esperava”, diz Monteiro. Foram sete horas e cinqüenta minutos para rodar uma cena – com muita ação – que, na tela, deve durar um minuto e meio. Um trabalhão danado – foram rodados 26 planos – , mas o set está exultante. “Esse é o bom stress!”, vibra Chicão.

“Obrigado, gente! Um dia bom. Difícil, complicado, mas muito bom! Obrigado a toda a equipe da pesada. Parabéns Vô Du! Cabeça, Marcão, elétrica, obrigado!”. Era Daniel encerrando o set e partindo ainda àquela hora para a estação de trem de Campinas, para conferir uma nova possível locação.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 19/julho

Três momentos do set…



Segundo dia na Fazenda Santa Maria. E também o último dia de filmagem de Letícia Sabatella, Giulia Gam e Paulo Vespúcio. O elenco de Chico Xavier reúne um time de estrelas: além de Ângelo Antônio, Nelson Xavier, Christiane Torloni, Tony Ramos, Luís Mello e André Dias (que conduzem a história), outros personagens têm apenas algumas cenas. Mas são interpretados por atores e atrizes de primeira, como os três citados acima, e mais Cássio Gabus Mendes, Pedro Paulo Rangel, Paulo Goulart, Giovanna Antonelli, Cássia Kiss, Ana Rosa… a lista é enorme. E forma um time que engrandece ainda mais o projeto.


O dia começou com a chegada apoteótica de Matheus Costa, o Chico menino. Ele desceu da van de ray-ban e casacão preto, na maior pinta. Todos no set se rendem a Matheus. Quando está em cena, é concentrado como um veterano; fora dele, é uma criança de 11 anos que brinca e se diverte como qualquer outra. Hoje, Daniel se divertiu jogando `bate-mão` com o menino entre duas cenas. E Luís Mello divertiu Matheus. “Pedi um autógrafo quando ele chegou ao set, todo de óculos escuros, mas ele não me deu”, brinca o ator.

Mello não perde uma. Está sempre fazendo piada. Hoje, por exemplo, com o tempo instável – que resultou em mais uma briga de Daniel contra o clima, esperando o sol sair várias vezes para continuar uma cena –, a produção e a direção têm opções de cenas às externas. Mello, a “opção chuva”, como ele mesmo se definiu, repetiu a expressão o dia todo. “A opção chuva tá pronta e agora o sol saiu!”. “Vou rezar pro sol sumir, pra opção chuva filmar”, dizia. Mesmo com sol, a “opção chuva” mais uma vez atacou a charrete, depois de umas dicas de Roberto, o dono do burro que puxava a carroça.

Quem também chegou hoje foi a professora de prosódia Babaya, que, junto com Cynthia Falabella – que voltou para São Paulo ontem – preparou o sotaque mineiro do elenco. Mas as duas fizeram mais que isso. “Eu chamo de direção de texto porque não trabalhamos apenas o sotaque, mas a intenção e o timbre, que deságuam no sotaque”, explica. Para Nelson Xavier e Ângelo Antônio, por exemplo, ela trabalhou a unidade do timbre dos dois, que vivem o mesmo personagem em épocas diferentes.

A última cena de Letícia – mãe de Chico – é embaixo de uma árvore enorme. A câmera, mais uma vez colocada na grua de 15 metros, faz um movimento que começa lá do alto, atravessa os galhos e chega bem perto do rosto da atriz. Antes da cena, Daniel conversa com Matheus: “Aqui você está olhando pro céu. Na minha cabeça, este é o momento em que você conversa com as vibrações que estão à sua volta. Quase como Harry Potter”, diz Daniel, falando uma linguagem simples para definir a intensidade da cena.

Em um intervalo da filmagem, Daniel se dirige à família que é proprietária da Fazenda Santa Maria há 50 anos. Regina Levy está entusiasmada com a trupe que estacionou em sua terra. Muitos membros da família, que é de São Paulo, vieram assistir à filmagem. “Tem umas 30 pessoas da família hoje aqui”, conta Regina, que viu uma das cenas do Video Assist, a convite de Daniel – que depois foi conversar um pouco com os outros membros da família.

Até dona Regina vibrou quando Matheus, na `cena Harry Potter`, deveria jogar um pião e depois fazê-lo rodar em sua mão. “Não é fácil, Matheus, eu não conseguiria fazer isso! Fica tranqüilo”, dirigia Daniel. Mas Matheus não estava. Ele teve aulas na base da produção, ainda no Rio, e desde então vem treinando todos os dias. Mas é um movimento difícil e ele tenta duas vezes. Na terceira, acerta: dá um pulo de alegria e um soco no ar, como Pelé comemorando um gol. E o set aplaude.

Giulia Gam recebe as flores e o cartão de Daniel, em que ele brinca com a atriz



O dia teve três belos momentos: após gravar sua última participação, Letícia Sabatella recebeu flores de Daniel, com um cartão carinhoso. Ao fim da tarde, a cena se repetiu com Giulia Gam – mas com um pouquinho de teatro. Daniel fingiu que iria fazer uma cena externa, para Giulia sair da casa de Rita. Quando a atriz apareceu na varanda, Daniel a esperava com um buquê e um cartão, dizendo: “Giulia, valeu pela coragem de enfrentar a Rita e a mim. Obrigado.”

O terceiro momento aconteceu após o almoço. Sentado no gramado com sua mãe, Leila, Matheus recebeu uma ligação do pai pelo celular. “Onde você está, pai? Você não vem pra cá?”, perguntava Matheus, sem perceber que o pai subia a estradinha de terra, a 50 metros dele. “Olha lá, Matheus”, avisa Leila. O menino deu um grito (“Paaaai!!”), largou o celular no chão e saiu correndo para se jogar nos braços de Alex, a quem não via há duas semanas. E saiu apresentando o pai de verdade ao pai de mentira (Luís Mello), ao pai adotivo (Paulo Vespúcio), à tia rabugenta (Giulia Gam), aos membros da equipe. E ficou feliz ao ver que Alex, em sua homenagem, cortou o cabelo igual ao dele.

O encontro de Matheus Costa e de seu pai Alex




No fim do dia, um susto. Luís Mello conduzia a charrete quando o barrigueira que prendia o arreio ao burro arrebentou – por ser antiga (da década de 1920), não suportou a condução. Matheus, ágil, pulou rapidamente – enquanto o dono do animal e o pessoal do platô imediatamente seguraram a charrete, para não virar com Mello.

O sol se põe e com ele mais um dia de Chico Xavier. Amanhã tem mais filmagem na fazenda.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 18/julho

Viajando na Maria Fumaça


Pedro Leopoldo, 1918. Ou Fazenda Santa Maria, em Tanquinho, a 30 minutos de Paulínia. Primeiro dia de filmagem na cidade paulista e a expectativa é por duas cenas protagonizadas por Rita, tia de Chico, que será interpretada por Giulia Gam.

Giulia Gam faz exercícios de alongamento antes de viver Rita, a tia de Chico (fotos de Ique Esteves)





A atriz chegou à Paulínia na quinta-feira e, desde então, vem se preparando para viver a personagem. “Tô apavorada com ela”, diz Giulia, referindo-se à conturbada relação de Chico criança com a tia. Antes da cena, ainda sem a caracterização, Giulia senta-se ao sol, sob uma árvore do grande gramado atrás do set. Ensaia seu texto com um Chico imaginário. Depois, já Rita, passeia pela fazenda, relaxando.

Para esta cena, o ator mirim Vitor Navega, 11 anos, que vive Moacir, filho de Rita e primo de Chico, tem uma ferida na perna – e o machucado deve ter uma aparência purulenta. Um trabalho para a maquiadora Rose Verçosa, que desde a pré-produção do filme vem elaborando este detalhe da cena. “Não a maquiagem, que é uma técnica normal de efeitos especiais para o cinema”, conta Rose. “Mas sim o pus que sai da ferida, já que ela teria que ser lambida por um menino”, diz. Lambida? Bem, este é um segredo do filme que não podemos revelar…

Rose Verçosa e Ancelmo Saffi preparam a `ferida purulenta`do ator Victor Navega Motta, que interpreta Moacir, filho de Rita


Mas dá para contar como Rose desenvolveu o efeito. “Eu estava em casa, pensando em como fazer isso, conversando com minha faxineira e amiga há 18 anos, a Maria Amélia. `Como vou fazer uma coisa que o menino possa tocar com a boca?`. E ela me disse: `tem que ser doce’. E aí veio o estalo: leite condensado! Com um pouquinho de anilina amarela sabor laranja e pronto. Ficou palatável”, conta a maquiadora, que executou o trabalho junto com o assistente de maquiagem Ancelmo Saffi.

Pouco antes desta cena, próximo à linha férrea, é filmada a primeira cena do dia: Luis Mello e Matheus Costa andando entre os dormentes. Uma cena simples e rápida, mas que trouxe à tona uma brincadeira nos bastidores de CX: o de conseguir o que Steven Spielberg não conseguiu.

Na linha férrea por onde a locomotiva 338 irá passar, Matheus Costa ensaia para a cena



Para a continuação desta cena, uma maria fumaça irá atravessar diante da câmera de Gilberto Otero: a 338, a última locomotiva deste modelo em perfeito estado de conservação do mundo, restaurada pelo Museu Ferroviário de Campinas – e que, por isso mesmo, o diretor de ET quis comprar para utilizar em um filme. Mas não levou. A velha e bela locomotiva estará em Chico Xavier. “Eu li sobre isso e perguntei se entre as locomotivas que usaremos estava a 338. E estará! Portanto, em alguma coisa vou deixar o Spielberg com inveja! Ele queria comprar este trem e eu tenho!“, comemora Daniel Filho, que cita: “Orson Welles disse que o cinema é o maior trenzinho elétrico que foi inventado para o homem brincar…”. Spielberg pode morder o cotovelo porque quem vai brincar com este trem é a produção de Chico Xavier…

E a 338 iria chegar em breve. O trem que faz o roteiro turístico Campinas-Jaguariúna iria passar por Tanquinho dali a pouco. E quando passa, o set silencia: o apito choroso da locomotiva, a fumaça da caldeira voando ao vento, o pequeno Chico sobre um barranco observando a maria fumaça… isso é Pedro Leopoldo, 1918.

Como também é a casa de Rita – a única desabitada na fazenda – , que teve as paredes internas demolidas para aumentar o set e abrigar a cena, na sala com fogão de lenha aceso, panelas de ferro e barro, oratório e filtro de época, daqueles de barro que refresca a água. A família reunida em volta da mesa – tendo à cabeceira o ator Paulo Vespúcio, que também integra o elenco, vivendo o marido de Rita, Emiliano. Como Giulia, ele também está ansioso por sua primeira cena. Os dois passam o texto sob as árvores, e então Giulia relaxa. “Depois da primeira cena vai fácil…”, diz a atriz.


Daniel ensaia o elenco para a cena na casa de Rita, que foi totalmente transformada: as paredes internas foram demolidas para aumentar o set e os elementos de cena reproduzem a casa humilde do início do século passado

Uma pausa para comemorar a chegada de um novo integrante da equipe de Chico: o trailer de Daniel, oferecido pela Film Commission de Paulínia, um espaço para o diretor relaxar entre as cenas. Quem passava, queria dar uma espiadinha. “Coloca uma placa: cuidado, diretor raivoso!”, brinca Daniel. “Limpa o pé!”, avisa, quando o diretor de fotografia Nonato Estrela sobe o primeiro degrau.

A última cena do dia, ao cair da tarde, contou com uma feliz coincidência: o retorno da locomotiva da manhã e do sol que o diretor esperava abrir. Cinema também se faz com sorte… Após a cena – em que estava Matheus Costa – Daniel, olhando pelo monitor, elogiava o talento do menino, além de seu caráter e boa educação . Sem saber que Leila Costa, mãe de Matheus, estava atrás dele, ouvindo e chorando de alegria…

Ah, sim: voltou ao set o câmera Daniel Duran, já totalmente recuperado da catapora que o afastou do filme por uma semana. Sem nenhuma pintinha…