quarta-feira, 9 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 17/julho


Tempos de paz para Chico Xavier



As filmagens em Paulínia começam amanhã. Por isso, hoje, os cabeças de todos os departamentos estão reunidos com Daniel Filho para a análise técnica das locações e os últimos preparativos para esta nova etapa. Às 10h30 da manhã o movimento era intenso na entrada do hotel, com as equipes se dirigindo para a base e, dali, para o tour pelos diversos cenários que transformarão Paulínia na terra de Chico.


Olivia Byington e Daniel na platéia do Theatro Municipal de Paulínia (fotos de Ique Esteves)






Enquanto a largada para Chico Xavier em Paulínia não começa, a trupe ainda comemora a noite de ontem. O encerramento do II Festival Paulínia de Cinema premiou Olhos azuis, de José Joffily como melhor filme. E teve como homenageado o diretor de Chico Xavier – e de Tempos de paz – Daniel Filho.

À entrada, a chegada de Daniel já era anunciada pelo locutor do festival. E foram muitas entrevistas no foyer do Theatro Municipal de Paulínia até o início da cerimônia. Em todos os momentos, sempre ao lado da namorada, a cantora Olívia Byington, Daniel ressaltou a emoção de ser homenageado esta noite. “Estou nervoso, sufocado…”, dizia.

A atriz Carla Daniel entrega o prêmio ao pai, Daniel Filho, observada pelos apresentadores da noite, Murilo Benício e Guilhermina Guinle





O prêmio foi entregue por sua filha, a atriz Carla Daniel – que está em Chico Xavier, vivendo Carmosina. E o agradecimento do homenageado foi muito descontraído. “Vocês viram os aplausos exagerados? É porque toda a equipe de Chico Xavier está aí!”, disse Daniel, e toda a trupe se manifestou, espalhada pelo grande teatro. “Receber um prêmio é quase como quando cantam Parabéns pra você. Só que neste caso não é porque você nasceu, mas sim pelo trabalho que realizou. Eu sempre digo que o que importa não é quão bom você é, mas quanto tempo você dura”, continuou o diretor, com 57 anos de trabalho como ator, diretor e produtor no cinema e na TV.

Daniel confessou que, durante o dia, ficou “nervosinho”com a homenagem. “Aliás, nervosinho, não. Nervoso, muito nervoso. E aí está a Olívia que não me deixa mentir… sozinho”, e o teatro inteiro riu. Depois de receber o prêmio, foi exibido um documentário sobre a carreira de Daniel, com depoimentos de amigos (Luís Carlos Barreto, Cacá Diegues, Boni, sua diretora assistente Cris D`Amato e Carlos Eduardo Rodrigues, da Globo Filmes, entre outros) e de sua mãe, Mary Daniel. E, finalmente, na tela foi passada a première de Tempos de paz, filme que encerrou o festival.

Uma parte da equipe de `Chico Xavier`, que compareceu em peso ao teatro para acompanhar a homenagem ao diretor







Com Tony Ramos e Dan Stulbach quase o tempo todo na tela, os quase mil espectadores se emocionaram, riram e aplaudiram o filme ,“em cena aberta”, por duas vezes. Ao final, uma ovação ao filme encerrou a homenagem. À saída, até os integrantes da equipe de Chico Xavier que participaram de Tempos de paz estavam emocionados. “É magistral. Eu me orgulho muito de ter participado deste filme”, disse a maquiadora Rose Verçosa. “Que linda reação do público, agradeço muito, muito”, comemorava o produtor executivo Julio Uchôa.

Reunida, a equipe saiu para encerrar a bela noite de Tempos de paz. Porque, a partir de agora, o pensamento e o trabalho voltam para Chico Xavier.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 16/julho .2

Rumo a Paulínia



E a caravana de Chico Xavier segue viagem. Hoje, às 10h30 da manhã, o ônibus fretado partiu em direção a Paulínia, interior de São Paulo, distante oito horas de Tiradentes. Apenas uma parte da equipe vai neste ônibus. Hoje, automóveis, vans e avião também levam parte da trupe; outros seguiram de carro ontem e parte da produção e das equipes técnicas já estava em Paulínia desde segunda-feira, assim como os caminhões que levaram equipamentos e figurino.

A primeira parte da viagem no ônibus foi tranqüila. A maioria dormia – resultado da festa de despedida de Tiradentes, que aconteceu ontem e foi bem animada. Outros liam ou ouviam música nos i-pods. O camareiro Egas Ramos “comemorava” seu triplex com suíte (três poltronas à sua disposição no último banco do ônibus) com o assistente de figurino Alex Brollo. O still Ique Esteves documentava o início da viagem em fotos, enquanto Gil Baroni, que faz o making of do filme, atravessava o ônibus com sua câmera.

Matheus Costa passa o tempo lendo gibi




Enquanto isso, o trabalho não pára: o diretor de produção Luiz Henrique Fonseca e a assistente de produção Clara Machado transformaram suas poltronas em escritório e faziam mil ligações para os membros da equipe avisando dos planos para sexta-feira – já que amanhã é dia da folga pós-deslocamento. “Minha bateria acabou!”, avisa Clara, mas logo tira da bolsa outro celular e continua o trabalho…
Pelo ar também havia o que fazer: Daniel, o diretor de fotografia Nonato Estrela e o gerente de imagem digital Miguel Lindenberg faziam tomadas especiais aéreas. Já a diretora-assistente Cria D`Amato aproveitou a folga para conhecer Tiradentes, já que durante as filmagens ela (como outros da equipe) via apenas o trajeto entre o hotel e os sets…

Um churrasco na parada para o almoço e a caravana segue viagem. E então a tragédia: de repente, um odor insuportável toma conta do ônibus. Quem estava dormindo acorda, quem ouvia música levanta assustado. “Pelo amor de Deus, o que é isso?”, pergunta a coordenadora de direção Paula Horta. Era um problema no toilette do ônibus… e o caos estava formado. A continuista Gláucia Pelliccione tira da bolsa seu perfume e borrifa no ambiente; a maquiadora Rose Verçosa acende um incenso, que vai passando de mão em mão até o fim do ônibus.

“Máscaras de oxigênio cairão automaticamente e imediatamente!”, suplica o diretor de produção Luiz Henrique Fonseca, sacando uma máscara para os olhos e colocando sobre o nariz. Apesar do rebuliço, serviu para animar todo mundo, que a partir dali fez piada com a situação – até o motorista parar em um posto de gasolina para resolver o problema.

O diretor de produção Luiz Henrique Fonseca e a máscara que “caiu imediatamente”




O resto da viagem – como todos já ansiosos por chegar – transcorreu sem mais cheiros ruins ou percalços. Como amanhã é dia de folga, alguns combinavam ir hoje à noite para Campinas. Outros marcaram de conhecer a cidade vizinha amanhã. Mas quem for sabe que deve voltar até o fim da tarde: é que amanhã há o encerramento do Festival de Cinema de Paulínia e será uma noite muito especial para todos os envolvidos com Chico Xavier. Por que? Leia amanhã neste blog…

FILME CHICO XAVIER - 16/julho

Homenagem em Paulínia


Primeiro dia em Paulínia. Folga para a maior parte da equipe. Alguns membros da trupe já marcaram de conhecer o Zoológico, perto do hotel Íbis, onde a maioria está hospedada. Outros já rumaram para Campinas para umas comprinhas. E outros ainda, para São Paulo. Boa parte das mulheres já marcou salão de beleza para fazer unhas e depilação. Enfim, dia de descanso para alguns.

Mas não para todos. Logo cedo, o departamento de Arte já estava reunido na varanda do hotel, discutindo cenários e preparativos para o primeiro dia de filmagem. E a equipe de produção está indo rumo à base. Entretanto, todos – os de folga e os que já estão a mil por hora – estão esperando pela noite de hoje. Que será muito especial. Desde o dia 9 de julho acontece na cidade o segundo Festival Paulínia de Cinema, com 30 filmes na competição entre longas, documentários e curta-metragens. A cerimônia de encerramento será hoje à noite, quando serão conhecidos os vencedores.

Mas a caravana de Chico Xavier está ansiosa por outro motivo: é que a edição deste ano do festival homenageia o diretor Daniel Filho – 71 anos de idade, 57 de carreira –, com direto à première de seu último filme, Tempos de paz (seu sétimo longa em oito anos como diretor), no Theatro Municipal. O filme tem como protagonistas Tony Ramos e Dan Stulbach, foi filmado em apenas nove dias e é o terceiro filme de dobradinha Daniel e Tony. Os anteriores foram Se eu fosse você e Se eu fosse você 2. O ator também está em Chico Xavier, vivendo Orlando, um pai que tem o filho assassinado. O quarto filme desta parceria.

Passado em 1945, Tempos de paz é uma adaptação para o cinema da peça Novas diretrizes em tempos de paz, de Bosco Brasil, e conta a história do encontro de um ex-oficial da polícia política do governo Vargas – agora chefe de seção de imigração da Alfândega – com um refugiado polonês.

O festival movimentou a cidade e a noite de encerramento é muito aguardada por todos os competidores e espectadores dos oito dias de maratona cinematográfica. Além da mostra oficial, aconteceram mostras paralelas – em que foi exibido Seu eu fosse você 2, também dirigido por Daniel –, debates e seminários. Tempos de paz não participa da competição, e será exibido após a homenagem ao diretor, como encerramento do festival.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 14/julho

Último dia em Tiradentes

Hoje, às 10h15, bem distante do set de Chico Xavier, chegaram ao mundo Antônio e Eduardo. Os primeiros “filhos” de Chico – e em dose dupla. Os gêmeos são filhos do eletricista Marco Antônio de Lima, o Marcão, que recebeu a notícia minutos antes do início da primeira cena do dia. Foi uma festa no set: toda a equipe aplaudiu, assoviou, abraçou Marcão e tirou fotos com o novo papai. “Hoje, no fim do dia, parto para o Rio e amanhã, para Porto Alegre, para conhecer meus novos filhotes”, disse Marcão, que já é pai de Lucas, de 13 anos.



Foi Vera Melo, assistente da produção executiva (à frente, de luvas azuis) quem levou a boa notícia ao set: Marcão (atrás, de boné vermelho) era pai de Antônio e Eduardo. Toda a equipe comemorou o nascimento dos gêmeos (Fotos de Ique Esteves)


E parece que os bebês trouxeram o sol de volta a Tiradentes. A última manhã de filmagem foi a mais fria de todas: às 7h, o termômetro marcava oito graus, a serração era forte e o dia, nublado. “Tudo gelado!”, conta o assistente de figurino Alex Brollo, responsável por vestir os 50 figurantes do dia. “Cabides, roupas, sapatos, tudo gelado!”.

A mudança de temperatura em Tiradentes – muito calor durante o dia, muito frio à noite – provocou um fato inédito: a ausência de Daniel Filho do set. Bastante gripado, e às vésperas da maratona de Paulínia, Daniel foi atendido por um médico (uma obrigação por conta do seguro do filme) e deixou com a diretora-assistente Cris D`Amato o comando de todas as seqüências do dia.

Do elenco, apenas Luís Mello, Matheus Costa e André Luiz Frambach, o José criança. Os meninos, enquanto esperam para gravar, são protegidos do frio da manhã por uma “barraca”de cobertores… Os outros atores já partiram, e vão encontrar a trupe em Paulínia na quinta-feira. Cris interage com os três pequenos figurantes que devem simular um jogo de bola de gude: “Mas vocês jogam sem graça assim? Quero bagunça, criançada!”. E tome bagunça!

Após o almoço, tipicamente mineiro, a mudança para o último set em Tiradentes: a rua que reproduz a casa de Chico e o Centro Espírita de Pedro Leopoldo. Esta cena foi assistida por Carolina Gontijo, diretora-executiva da Minas Film Commission, e Maria Viveiros, assessora do estado de Minas Gerais e também da Minas Film Commission – que é um conjunto de instrumentos facilitadores para a realização de produções no estado, gerido pela Secretaria de Cultura de Minas Gerais em parceria com as secretarias de Desenvolvimento Econômico e do Turismo. Elas auxiliaram o produtor-executivo Julio Uchôa e a produtora da frente Tiradentes, Flávia Santos, no primeiro levantamento para Chico Xavier, fornecendo suporte logístico para a descoberta de locações, contatos com prefeituras e com grupos espíritas de Minas, por exemplo. “Queríamos estar presentes aqui durante as filmagens, mas deixamos para vir no encerramento em Tiradentes”, diz Carolina.

A tarde cai – e a temperatura também. A equipe já está finalizando a última cena na cidade. De repente, uma cena inusitada: a moça contratada para a limpeza da base de produção chega ao set “com uns goles a mais” – e os figurantes locais contam que de vez em quando ela dá alteração. A moça insistia em entrar em cena “para ajudar e se despedir” e teve de ser contida por Juninho, da equipe do platô, que a colocou na van da produção. Enquanto a equipe dizia a frase-mote do filme – “E tome evangelho!”– Juninho foi atingido por um direto de direita no olho.

Juninho, do platô, tenta conter a moça da limpeza, que, um pouco “alterada”, queria se despedir da equipe e invadiu o último set em Tiradentes




Depois da interrupção – e da última cena filmada – é hora de desproduzir todo o equipamento, pela última vez na cidade histórica. Desde ontem, todos os prédios utilizados para locações foram pintados e entregues novinhos em folha. Na base da produção, o pessoal que segue para Paulínia e despede de quem fica aqui, como a produtora Flavia Santos e a assistente de produção Fernanda Chasim.

As vans, caminhões e automóveis utilizados pela equipe atravessam a cidade em direção ao hotel. Amanhã, a caravana de Chico Xavier segue viagem, para 20 dias de filmagem em Paulínia, no interior de São Paulo. Pé na estrada!

FILME CHICO XAVIER - 13/julho

Talismãs e arte


Matheus Costa, o Chico Xavier criança, voltou ao set. Fez prova – mas não de Matemática. “Não me senti muito preparado”, diz, mas garante que se saiu bem em História, Geografia, Inglês e Espanhol. Matheus chegou com todo o gás. Antes de gravar sua cena – na procissão de São Sebastião –, pediu a Cynthia Falabella para entregar à mãe, Leila, uma moedinha de 1 centavo. “Ele disse pra guardar bem, que é a moedinha da sorte dele”, avisou Cynthia.

Matheus na procissão, em que carrega um tijolo de verdade (mas não muito pesado…) para dar veracidade à cena (fotos de Ique Esteves)






Enquanto é maquiado, ao lado de Matheus, Ângelo Antônio parece encarnar Chico criança: esconde um spray de água, e espirra em quem passa por perto. O menino dá muita risada. “Dei ao Matheus um pouquinho do perfume de Chico. Ele me deu um abraço tão apertado que já valeu por tudo”, conta Ângelo. “Agora, antes de entrar em cena, o Matheus coloca o perfume no pulso e cheira, de olhos fechados.”

Próximo dali, enquanto espera para filmar, Pedro Paulo Rangel – que vive o padre Scarzelo – aproveita para resolver assuntos domésticos: “Hum… não, nunca lembrei de trocar isso desde que fui morar aí… Chamou o rapaz do aquecedor? Pois é, esqueci de trazer o carregador do celular…”, dizia, ao telefone, antes de entrar em cena e dar uma bronca em Chico.


O diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto e a produtora Ula Schliemann dão os últimos retoques no andor com a imagem de São Sebastião





A cena da procissão foi gravada durante todo o dia – entremeada por outras cenas – e o departamento de Arte levou três semanas para produzir o material necessário. “Usamos o trabalho de artesãos locais em quase tudo”, conta o diretor de arte Cláudio Amaral Peixoto. Quase tudo são as flores de papel para o andor, o estandarte, até mesmo a imagem de São Sebastião foi trabalho de mãos locais.

A Arte – como os outros departamentos envolvidos no filme – está dividida em várias frentes de trabalho. Simultaneamente, há equipes desmontando o que já foi filmado no Rio; fazendo o dia-a-dia em Tiradentes; desmontando o que já foi filmado aqui; construindo os cenários em Paulínia; e já preparando os cenários que serão utilizados na volta ao Rio. E Cláudio se movimentando entre todas elas. “Desde a semana passada já fui a Paulínia duas vezes. E daqui a pouco estou indo de novo”, conta.

O resultado do trabalho de Cláudio e de sua produtora Ula Schliemann – que trabalham juntos há 10 anos – segue agora em passos lentos, levado pelo padre Scarzelo, coroinhas, um sacristão, sete anjinhos – entre ele Chico – e os fiéis em procissão. Daniel entregou a direção de toda esta seqüência à diretora-assistente Cris D`Amato. Ozanan Conceição, que preparou os 80 figurantes de hoje, auxilia a assistente de direção Anita Barbosa na armação da fila e ensaia o cântico. “Gente, é pra cantar com fé!”, grita ele, e todos cantam. Depois, ensaia o coro sem voz, só fazendo mímica – um recurso utilizado para a melhor audição da fala dos atores.

Quando Anita avisa: “quando eu falar ação todo mundo canta!”, uma senhora levanta o dedo e pergunta: “Mas é pra cantar cantando?”. Sim, desta vez é pra cantar cantando. E ‘seu’ José Vicente Carlos – aquele que ofereceu seus serviços de jardineiro a Daniel dois dias atrás – está lá, firme e forte aos 71 anos, subindo e descendo a ladeira, cantando Bem-vindo, louvado seja.

‘Seu’ José Vicente Carlos, jardineiro e parte da figuração de ‘Chico Xavier’ em Tiradentes



Quando as filmagens de Chico Xavier começaram, algumas pessoas da equipe sentiram que algo mágico poderia acontecer no set. E aconteceu – com Ângelo Antônio. Próximo à mesa de café, água e docinhos mineiros, ele conta que há alguns dias perdeu o lenço que o filho adotivo de Chico, Eurípedes, lhe deu de presente. “Procurei nos bolsos da calça, do paletó que usei na cena. Todo mundo me ajudou a procurar. Tinha sumido”, conta Ângelo. “No dia seguinte, fui vestir a mesma roupa e a primeira coisa que fiz foi colocar a mão no bolso. O lenço estava lá…”, diz o ator, que deixa o set hoje para ensaiar sua próxima peça, no Rio, e volta em Paulínia, no domingo.

Outra mágica deve acontecer amanhã nos bastidores de Chico Xavier. Dois anjinhos – e não são os da procissão de hoje – devem dar o ar da graça…

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 12/julho

A fala do “homem da Bíblia”


A primeira cena do dia foi a que havia sido adiada na quinta-feira. Desta vez, as ruas laterais estavam fechadas bem antes do set. Nenhum automóvel à vista.

Ângelo Antônio faz tai-chi-chuan na rua, diante do set (Fotos de Ique Esteves)


Às 8h45 estava tudo pronto para rodar. No meio da Rua da Câmara, diante da Igreja da Matriz, Ângelo Antônio fazia seu ritual: movimentos de tai-chi-chuan e de respiração. Quando o diretor chegou, todos estavam em suas posições e com tudo pronto para começar.

Não fosse uma mal humorada senhora que, sem se importar com toda a movimentação, entrou na cena – que ainda não havia começado – resmungando. “Ó, eu vou passar porque eu tenho que ir à missa e não quero nem saber, tô passando e vou passar e…”, continuou falando, até sumir de quadro.

Daniel e as assistentes de direção Tatiana Fragoso e Anita Barbosa



Se ontem houve uma certa tensão no ar, na segunda cena do dia (cenário: Centro Espírita Luiz Gonzaga) tudo se dissipou. No set ainda vazio, Daniel se reúne com a equipe de direção para um conversa reservada. Não se sabe o que foi dito, mas o resultado foi o restabelecimento da alegria no set. Antes do primeiro ensaio, ele explicou: “Queria aproveitar que estamos todos reunidos para dizer que ontem exagerei com meu pessoal. Passei do ponto para o ambiente de trabalho que quero ter aqui. Por isso, me desculpo com minha equipe e com todos, se houve um clima desconfortável. Muito obrigado”, disse Daniel. Aplausos e assovios no set.

Então começa a preparação para a cena mais esperada do dia pela equipe: a continuação da cena do produtor executivo Julio Uchôa como o “homem da Bíblia”. Desta vez com duas falas. Julio entra na sala da produção e avisa: “Já estou devidamente microfonado”, e depois liga para os pais avisando que sua foto está no blog.

Ele ensaia seu texto com Cynthia Falabella: “Deus me perdoa, seu Chico!”, é o que ele tem de dizer. E diz várias vezes. “Tá bom, Julio, tá ótimo”, avisa Cynthia, mas ele fala outra e outra vez. Na hora da cena – uma desobsessão de Chico em quatro meninas –, sua segunda frase fez sucesso: “E tome Evangelho!”. Que acabou virando um bordão entre o pessoal no set: para tudo o que acontecia, “tome Evangelho!”.

As atrizes Thamirys Spyker, Mariana Bassoul, Carolina Pavanelli e Juliana Poda, que estavam na cena, fizeram a preparação corporal com Rossela Terranova, ainda na base da produção, no Rio. “Rossela trabalhou a energia sexual reprimida das meninas e a vontade de liberdade que elas têm”, disse Mariana. “Ela criou a imagem de uma serpente de quatro cabeças: cada movimento de uma complementa o da outra, e o todo forma uma única massa, uma unidade”, completa Thamirys. O resultado – e o “tome Evangelho!” – será visto na telona do cinema.

A mesa de trabalho de Chico Xavier


No set a cena já foi aprovada, com Daniel abraçando Ângelo Antônio. “Obrigado às atrizes que tiveram a humildade de fazer este papel. E ao nosso produtor executivo que protagonizou o tagline (que pode ser traduzido como um slogan, um mote) do filme!”.

Mais uma cena – em que Daniel até operou a grua pessoalmente, com Sandro Galvão – e fecha-se o set de Chico por hoje. Com alegria e tranqüilidade… Mas o dia ainda não acabou: enquanto o cenário de hoje está sendo desmontado, Cláudio Amaral Peixoto e Ula Schliemann, da Arte, montam o andor que será usado amanhã; a equipe da figurinista Bia Salgado também prepara todas roupas e asinhas de anjos para a procissão. E a produção, embora ainda esteja em Tiradentes, já agiliza a partida da caravana para Paulínia, na quarta-feira.

FILME CHICO XAVIER - 11/julho

Fortes emoções e cânticos



Daniel Filho chegou ao set. Desceu do carro e foi direto falar com sua equipe, como de costume. Um problema de comunicação sobre o horário em que o carro deveria trazê-lo ao local da filmagem gerou uma hora de atraso na primeira cena do dia. “Isso não pode acontecer, nem comigo nem com ninguém! Quem sabe da próxima vez não me mandam pra um set e o resto da equipe para outro?”, alterou-se Daniel. A equipe se modifica temporariamente, algumas ausências, novas funções técnicas sendo assumidas por assistentes. A discussão tomou um rumo mais sério.

Alterações no humor e nas emoções, visando manter o set em funcionamento. Em meio a uma carga horária de muito trabalho e arte, administrar crises é uma das tarefas.

Daniel Filho dirige a roda de oração que entoa o cântico “Chega, chega, pecador” (Fotos de Ique Esteves)




Então começa o dia em Chico Xavier. O ensaio com os figurantes descontrai o ambiente. Uma roda deles – todos já idosos, moradores da cidade que encarnaram beatos – entoa o cântico Chega, chega, pecador. Uma, duas, três, quatro vezes. Os atores – Cássio Gabus Mendes, Samuel de Assis, Oswaldo Mil, Jean Pierre Noher, Charles Fircks e Tião D`Avila se entreolham e dão risada. “Isso vai ficar na cabeça pra sempre”, diz Cássio. “Vai. Dias, semanas, meses!”, completa Tião. “Chega, chega, pecador / nessa sala encantadora / vem beijar Nossa Senhora / Conceição visitadora”…

Outra cena de hoje teve a participação do assistente de maquiagem Ancelmo Saffi e do produtor executivo Julio Uchôa. Ancelmo viveu um católico que chega ao Centro de Chico. Ensaiando com Cássio Gabus Mendes, o ator chamou personagem (que deveria se chamar Tenório) de Ancelmo. “Ancelmo, meu filho!!!”, gritava Cássio. O set cai na risada. E Daniel aproveita: “Troca o nome. Ele não é mais Tenório, é Ancelmo mesmo!”. E assim foi…

Julio Uchôa, com o terço na mão, e Ancelmo Saffi (de terno, ao lado do ator Cassio Gabus Mendes)


Já Julio Uchôa trocou os dois celulares e a função de produtor executivo – que não param de tocar um minuto – pela Bíblia. Seu personagem é esse mesmo: o “homem da Bíblia”. Julio, que já foi ator, encarnou o beato com o Livro Sagrado na mão. E todos no set não perderam a chance de fotografá-lo…

Sandro Galvão (o câmera que chegou para substituir Daniel Duran até sua volta) “vestiu” o easy rig – uma traquitana que parece um daqueles aparelhos de fumacê – que prende a câmera ao corpo e é usada para tomadas com a câmera na mão (sem tripé). Embora não auxilie na estabilidade da imagem, ela é um conforto para o câmera. “Alivia o peso no ombrinho”, diz Sandro.

Segundos antes da ordem de gravar, o alto-falante da Igreja Matriz anunciou o ensaio de seu coral: “Amanhã, às 18h, ensaio ………”. E o anúncio não tinha fim. “Tem alguém do coral aqui? Então não esqueçam do ensaio amanhã!” dizia Daniel, enquanto esperava para gravar. Chicão, chefe do platô, já agoniado no rádio, perguntava a seu assistente: “Esse anúncio não acaba nunca??”. Acabou. Quase cinco minutos de alto-falante na igreja, e a cena esperando…

`Seu`José Vicente Carlos, um senhor de muita idade que participou como figurante na cantoria, sorri para Daniel. Ao vê-lo, o diretor sorriu de volta. Ele não teve dúvidas: foi até o Video Assist, apertou a mão de Daniel e ofereceu seus serviços de jardineiro…

Até a última cena, o set funcionou corrido, com ansiedade, muitas imagens, a rua cheia com mais de 120 figurantes. O horário passou, mas a equipe queria , em dia de crise, concluir o plano de filmagem. Depois, conversas informais e formais para a volta do pleno funcionamento do set no dia seguinte – remelexos e a espera de que tudo seja resolvido para amanhã.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 09/julho

Cena forte e micuim

Os atores Ana Rosa, Anselmo Vasconcellos, Cassio Gabus Mendes, Carla Daniel e Cacá Dias, que chegaram ontem à noite, já estão no set para uma cena que reúne amigos e parentes de Chico. Um cortejo. Nas ruas de pedra de Tiradentes – quer dizer, Pedro Leopoldo – João Cândido, pai de Chico, se desespera, enquanto a passos lentos o cortejo sobe a ladeira. Aplausos para Luís Mello ao final.

Esta é uma das cenas de hoje. Mas o que aconteceu atrás da linha que limita o set foi engraçado: uma turma de adolescentes invade a Rua da Câmara, em frente a Igreja da Matriz. Era uma excursão de um colégio de Três Corações – e os 42 alunos, quando souberam que a caravana de Chico Xavier estava na cidade, correram para o lugar. “Olha, é o diretor da televisão”, dizia um. “É filmagem de JK?”, perguntava outro. E quando Ângelo Antônio passou entre eles, as meninas enlouqueceram. Enfim, isso acontece quando se filma na rua…

Quem se identificou com a cena – tirando a tietagem – foi o ator Cacá Dias, que interpreta Raimundo, outro irmão de Chico. “Fiz muita excursão de colégio pra Tiradentes quando criança. Não tem como conter a bagunça…”, contou Cacá, que décadas depois está de volta à cidade com Chico.

O elenco que gravou suas primeiras cenas hoje foi recepcionado por Daniel Filho, com um agradecimento pelo deslocamento dos que vieram rodar apenas esta cena. A atriz Ana Rosa, que vive Carmem Perácio (quem descobriu o dom de Chico ainda adolescente), não se incomodou nem um pouco. “Você não imagina como fazer este filme é importante pra mim”, diz a atriz, que é espírita desde 1976. E conta uma coincidência entre a vida dela e a de Chico: “Eu trabalhava na TV Tupi quando Chico foi ao programa Pinga Fogo (uma cena que está no filme). Mesmo não sendo espírita naquela época, lembro que também fiquei impactada por sua presença tão forte”, lembra Ana Rosa.

E David Nasser finalmente gravou sua primeira cena! O ator Charles Fricks veio direto do teatro em que está em cartaz no Rio para Tiradentes. “Foi uma loucura. Estudei o personagem no trajeto. Mas já estou fascinado por ele”, disse Charles, que ficou o dia todo ao lado do ator Jean Pierre Noher – Jean Manzon no filme –, como seus personagens, que nos anos 40 formaram uma dupla da pesada na revista Cruzeiro. Manzon inovou o fotojornalismo brasileiro; Nasser era um jornalista polêmico – o que a dupla fez com Chico, só vendo o filme pra saber.

Em gravação de externas – principalmente em uma cidade turística nas férias escolares – os imprevistos sempre podem acontecer. Hoje aconteceram: em uma das últimas cenas do dia, já com a luz do sol caindo, vários carros de turistas estacionaram no campo de filmagem. A solução foi cobri-los com carros de época. Mas então ficou parecendo um “estacionamento” com automóveis, o que não combina com a Pedro Leopoldo de 1930. Isso fez com que a cena fosse adiada para outro dia. Daniel afastou-se um pouco do set, sentou-se sozinho por um tempo e partiu para mais duas cenas pouco depois.

Nos bastidores, a catapora de Daniel Duran ainda rende: a produção providenciou vacinas para quem ainda não teve a doença. Ele já voltou para São Paulo e retorna em cerca de 10 dias. A farmacinha de primeiros socorros da produção também providenciou sabonete, remédios e pomadas contra micuim, um carrapatinho que atacou parte da equipe! Vacina, sabonete e reza forte para proteger a equipe de Chico!

FILME CHICO XAVIER - 08/julho

Problemas solucionados!

A noite de ontem foi tensa. Após sair do set da cachoeira, o produtor executivo Julio Uchoa resolveu fotografar as pintas no corpo do câmera Daniel Duran e enviar por e-mail para um dermatologista no Rio. Pouco depois, recebeu o diagnóstico: foi confirmado que ele está com catapora. Julio e Daniel seguiram imediatamente para São João Del Rey, onde o diagnóstico foi corroborado por outro médico. Agora está tudo bem com ele mas, por ser contagiosa, a doença afastará Daniel Duran do set por, pelo menos, 10 dias.

Mais um contratempo a ser solucionado – ainda mais sendo um profissional como Duran, que pilota a câmera da grua. Pela manhã a produção partiu em busca de alguém com disponibilidade para substitui-lo. O maior problema é o tempo: ele tem de estar no set amanhã – e muitos dos que foram contactados já estavam em outros sets ou comprometidos com algum trabalho. Mas ao fim do dia, Julio Uchôa dá a notícia: “Pronto! Teremos Sandro Galvão no set amanhã!”, grita, com seu costumeiro entusiasmo. “Galvão finaliza hoje uma campanha publicitária e é um excelente nome para nós”, continua Uchôa.

Outro problema também está encerrado: a “novela” David Nasser foi resolvida. Quem irá viver o jornalista que vai ao centro espírita desafiar Chico Xavier é o ator Charles Fricks, indicado ao prêmio Shell ao prêmio de melhor ator pela peça Artimanhas de Scapino. O martelo foi batido hoje cedo e amanhã de manhã ele já estará se juntando à equipe na Pousada Pequena Tiradentes. “Foi uma sorte Charles ter um espaço na agenda para fazer. Quando ocorreu o problema com Michel Bercovich, fizemos várias reuniões de produção para saber que tipo físico de ator chamaríamos. A gente só sabia que tinha que ser um excelente ator. Chegamos ao Charles. Melhor, impossível!”Esse é o Julio Uchoa!

Charles Fricks chega em boa hora. Porque hoje também aterrisou no set o ator francês – radicado na Argentina – Jean Pierre Noher, que será Jean Mazon, fotógrafo e companheiro de Nasser na reportagem que foi publicada na revista O Cruzeiro em 1944 e que expôs Chico em texto e fotos. Jean Pierre acompanhou várias cenas externas, mostrando entradas e saídas de Chico, de seu irmão José, do pai João Cândido e do sobrinho Altair do Centro Espírita Luiz Gonzaga e da casa de João Cândido.

Apesar de morar na Argentina, Jean Pierre já fez sete filmes no Brasil, uma mini-série e recentemente interpretou o personagem Pepe Molinos na novela A favorita. “ Conheci Daniel Filho em 2000, quando recebi o prêmio de melhor ator em Gramado por Um amor de Borges. Sempre quis trabalhar com ele no cinema e, finalmente, estou aqui”, disse Jean Pierre, enquanto observava a cena de Ângelo Antônio e Oswaldo Mil (o irmão de Chico, José).

A visita ao set também teve uma função de “laboratório” para o ator. O fotógrafo still Ique Esteves, que faz as fotos de cena e dos bastidores de Chico Xavier – mostrou a Jean trejeitos de um fotógrafo no trato com sua máquina, o comportamento diante do fotografado e deu dicas sobre como manusear a câmera que será usada – uma Rolleiflex 1940: rodar a manivela lateral para passar o filme, onde fica o foco, o diafragma…


O dia no set foi corrido para o figurino. As externas mostravam três épocas diferentes – 1930, 1940 e 1950 – e havia muitas trocas de roupa, inclusive para os 45 figurantes. “Está tudo organizado, mas sempre é uma corrida, pois imediatamente antes de gravar passamos a roupa do elenco, que fica pendurada e sempre dá uma amassadinha”, conta a figurinista Bia Salgado.

O assistente de figurino Alex Brollo – responsável pela figuração – ensina o truque para controlar quem é quem e a qual década pertence: “Colocamos um cartãozinho no bolso de cada figurante indicando a época. Isso facilita muito os assistentes de direção na hora de armar a cena”, conta Alex, que ainda dá a dica: “Quando o figurino para os habitantes de Pedro Leopoldo foi elaborado, trabalhamos com a moda da década anterior. Naquela época, a cidade não recebia as informações da última moda na capital, por isso não vestiam as roupas mais atuais. O terno branco, por exemplo, que era um hit da moda nos anos 30, só é usado por figurantes com mais dinheiro e informação”, diz o assistente de figurino.

Hoje, ninguém foi mais feliz no set do que Manoel Carlos – um senhor escalado para ser figuração na fila diante do Centro Espírita Luiz Gonzaga. Ele foi escolhido por Daniel Filho para ganhar uma fala (”Seu Chico, trouxe essa galinha para o senhor…”) e, diante da orientação do diretor (”Fala com essa força que o senhor tem, seu Manoel Carlos!”), ele estufou o peito e fez a cena com firmeza. “Para conseguir contactá-lo para o set, tive que ir até sua casa, bem humilde, à noite. Ele não tem telefone nem um telefone para recado…”, contou Bruno Garotti, segundo assistente de direção. Um dia inesquecível para “seu” Manoel Carlos.

O elenco de Chico Xavier está quase completo em Tiradentes. À tarde chegaram Cássio Gabus Mendes, Ana Rosa, Anselmo Vasconcelos, Carla Daniel, Cacá Dias… O time cresce! Mas também houve mais um pequeno susto no set. A responsável pelos figurantes, Sylvia Oliveira, teve uma luxação no braço, após tropeçar no cenário.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

FILME CHICO XAVIER - 07/julho

Um dia zen

O restaurante do hotel ontem estava em festa. Entre vinhos e massas, uma confraternização espontânea da equipe tomou conta do amplo salão da Pousada Pequena Tiradentes. As pessoas iam chegando, ficando, conversando, rindo e relaxando pelas grandes mesas do mobiliário mineiro. “Obrigada por esses primeiros oito dias de trabalho”, foi o brinde sugerido por Daniel Filho, e todos levantaram firmemente suas taças. Quem chegou a Tiradentes foi a cantora Olivia Byington, gerente de mídias de relacionamento e de internet de Chico Xavier, que, entre dois fins de semana de seu show A vida é perto, em cartaz em São Paulo, aproveitou para acompanhar três dias de filmagem. Junto ao namorado Daniel Filho, Olivia – como toda a equipe - também estava ansiosa pela cena do dia seguinte: a cachoeira.

Apenas uma parte da equipe de Tiradentes seguiria para a Cachoeira da Fumaça. Mas o comboio foi grande: seis caminhões, quatro vans, duas pick ups, um jeep e seis automóveis partiram às 7h30 para uma viagem de 1h30 até Carrancas, uma cidadezinha com sua praça, sua igreja e seus habitantes espantados com a caravana que atravessou o município. Dez minutos depois, subindo uma das montanhas de Minas, a estradinha de terra leva ao set: uma cachoeira com sete quedas d`’agua (cinco maiores e duas pequeninas), que deságua em um lago gelado e é rodeada por floresta.

Para encontrá-la, a produtora de locação Flávia Santos – que desde fevereiro esteve à cata dos cenários ideais para o filme e há 45 dias firmou base na cidade – contou com uma mistura de sorte e determinação. A indicação era uma outra queda d`’agua, próxima dali. “Ao chegar ouvi um som de água forte e fui atrás. Pulei o portão que limita a entrada e achei o cenário que estava procurando. Mas por concentrar grupos de pessoas que vêm acampar ali, e por uma questão de preservação do lugar, o prefeito de Carrancas me disse que vai demolir um pequeno galpão que serve de bar, e organizar o turismo no lugar”, conta Flávia, que convenceu o prefeito a ceder a cachoeira por um dia, apenas. “Ele foi muito gentil e aceitou. O galpão só será demolido amanhã”, diz. Chico Xavier será o último visitante com entrada liberada no lugar...


A Cachoeira da Fumaça, em Carrancas, cidadezinha próxima a Tiradentes, tendo à frente a grua com a câmera posicionada em seu ponto de partida para a cena



O equipamento seguiu ontem, junto com o pessoal do platô, que chegou ao set às 7h30. Às 9h, veio o resto da equipe. E então já se podia notar um astral diferente em todo mundo. Mesmo com a expectativa pela cena e a ansiedade por elaborar a difícil tomada que será feita pela grua de 15 metros, a montagem do set foi tranquila. Desde a grua e o trilho com a traquitana colocado dentro da água até a instalação da base de figurino e maquiagem e da área de almoço, tudo transcorreu com uma eficiente tranqüilidade.

A produtora de Arte Ula Schliemann deu um mergulho rápido antes do início do set, a maquiadora Rose Verçosa entoou um mantra baixinho. De vez em quando, alguém da equipe ia até o pequeno rio um pouco abaixo, molhava as mãos, o rosto, relaxava, antes de voltar ao trabalho. Ângelo Antônio, assim que chegou, colocou a sunga e mergulhou na água gelada e nadou até bem próximo da cachoeira. “Para dar uma energizada, gritei um pouco”, contou, enquanto seguia para a maquiagem para se transformar em Chico.


Os câmeras Gilberto Otero (em primeiro plano) e Daniel Duran, `pilotando’ os difíceis movimentos, com Daniel Filho e o diretor de fotografia Nonato Estrela no Video Assist. Mesmo indisposto, Duran fez questão de não perder esta cena



Esta não será uma cena fácil de filmar: a grua começa no céu, vai deslizando desde o alto da cachoeira, faz uma panorâmica e desce, como uma folha ao vento, até bem próximo de Ângelo. Os pilotos da máquina são os seis maquinistas que operam a grua, o foquista Jorginho (responsável pelo foco da câmera) e os câmeras Daniel Duran e Gilberto Otero, guiando os três movimentos por controle remoto. Deve haver muita precisão e delicadeza, principalmente por conta do travelling da grua, que começa bem alto e chega ao rosto de Ângelo. Primeiro ensaio de movimento. Do Video Assist, Daniel Filho e Nonato Estrela já se entreolham, satisfeitos. Mais um ensaio. Melhor ainda.

Todos se reúnem em torno dos monitores para acompanhar o resultado do travelling da câmera. Cada um que vê pela primeira vez, se entusiama e murmura um sinal de aprovação. Daniel, que prefere estar sozinho com Nonato no Video Assist, não se importa com a aglomeração em volta de sua cadeira. O esforço do operador de câmera Daniel Duran, que ainda se sente indisposto – colocou-se até a possibilidade de ele estar com catapora -, foi recompensado por um belo trabalho.

Prepara para gravar e… some o sol. Daniel decide dirigir o clima, fazendo uma dança do sol – num dialeto africano improvisado. E o sol parece obedecer. “Dez minutos de sol!”, avisa a diretora assistente Cris D`Amato. E então é “gravando!”.

Quando Daniel diz que valeu, todo o set bate palmas. “Obrigado, Duran, obrigado Vô Du, pessoal da pesada, obrigado todo mundo!”, grita Daniel. E então todos se dirigem para o almoço, montado sob as árvores, com o barulho do rio bem perto, todos ainda comentando a cena.

Se esta primeira tomada era apenas contemplativa, a próxima tem muito diálogo. E não há como controlar o barulho da natureza. O técnico de som Carlos Alberto Lopes, que veio de Portugal especialmente para o filme, monitora os níveis de ruído em vários pontos. A cena será a que Emmanuel e Chico Xavier se encontram pela primeira vez, e acontecerá em um local um pouco mais silencioso. “Gravamos o som ambiente e depois o diálogo em canais separados, que depois serão mixados na mesa, de acordo com o necessário para a cena”, explica Carlos.

Gravada a cena com o diálogo, é hora da terceira – e última – de hoje. Um dia proveitoso, em que tudo deu certo no tom tranqüilo da natureza… e Duran parte do set direto para outra consulta com o médico.

O problema sobre quem será David Nasser finalmente está prestes a ser solucionado… Amanhã Chico Xavier já terá o nome do ator que vai viver o jornalista que desafia o médium.